A solidão é um território que exige fronteiras.
Só há solidão quando é possível se retirar, e só é possível se retirar quando há um dentro a proteger.
O problema é que o sujeito contemporâneo já não tem dentro. Tudo nele é translúcido, capturável, projetado. O eu tornou-se uma superfície lisa, sem densidade, atravessada por luz e informação. O mundo digital não inventou isso; apenas radicalizou uma mutação ontológica: a passagem do sujeito dividido ao sujeito transparente, aquele que vive sob a ilusão de poder se ver inteiro. O drama é que onde tudo se mostra, nada se elabora. O excesso de presença destrói o trabalho simbólico do recolhimento.
O ser humano só existe como fenda, como intervalo entre a linguagem e o real. A solidão, nesse sentido, é a experiência da falta reconhecida, o momento em que o sujeito se confronta com a ausência de completude e aceita a distância entre o desejo e o objeto. O que a cultura da conexão faz é negar essa falta. Ao oferecer presença contínua, ela elimina o intervalo, ou seja, destrói o espaço onde o desejo poderia respirar.
O sujeito hiperconectado vive num curto-circuito de estímulos que preenche o vazio antes que ele se torne significante. Assim, não há tempo para desejar: há apenas consumo de presenças que o mantêm ocupado.
Baudrillard chamaria isso de triunfo do simulacro. O contato já não ocorre entre sujeitos, mas entre imagens que circulam umas pelas outras. A comunicação não transmite sentido, mas reforça a equivalência geral dos signos. O outro é transformado em interface, o corpo em sinal, a palavra em protocolo. Não há mais alteridade, apenas reflexos
A hiperconexão é, no fundo, um colapso da distância, e, portanto, da relação. Pois toda relação humana precisa de um intervalo, o espaço entre dois seres que não se confundem. Quando o outro é totalmente acessível, ele deixa de ser outro.
A hiperexposição dissolve o sujeito na visibilidade. O que antes era singularidade se torna performance. O eu não se representa mais, ele se atualiza continuamente. Essa atualização é a nova forma de alienação: o sujeito só existe enquanto é visto. A imagem devolve um eu estético, sem resto, sem sombra. O sujeito acredita se encontrar quando, na verdade, é apenas reiterado. A solidão, nesse cenário, torna-se impossível não porque falte companhia, mas porque falta ausência, o respiro simbólico que separa o eu de sua imagem.
A era da conexão conjuga alguns verbos: tudo precisa significar, responder, render. O silêncio foi destituído de sua dignidade ontológica e transformado em falha técnica. Não há mais não dito, não há mais demora. Tudo é ruído, tudo é comunicação. E é nesse excesso de luz que o humano começa a desaparecer.
Na contemporaneidade o presente se tornou puro instante, incapaz de abrir futuro ou preservar passado. Essa compressão temporal intensifica o colapso do simbólico: não há narrativa, apenas atualização. O sujeito não habita mais o tempo, ele o consome. E sem duração, não há experiência de solidão, porque a solidão exige um tempo que não seja produtivo, um tempo sem finalidade, onde o ser possa simplesmente permanecer.
O que chamamos hoje de solidão é, portanto, uma impossibilidade simbólica
Não é ausência de laços, mas saturação deles. Não é isolamento, mas a incapacidade de se isolar. O sujeito cercado por conexões perde o sentido do dentro e do fora. Ele está preso a um contínuo sem profundidade, onde toda presença é imediata e todo vazio é intolerável. Sua subjetividade, incapaz de suportar a falta, busca preenchimento constante.
A verdadeira solidão não é a do deserto, mas a do intervalo. É o espaço em que a linguagem falha e algo novo pode nascer. Reabilitar o silêncio, a ausência e a espera é restaurar a própria possibilidade do encontro. Pois o encontro só existe quando dois sujeitos não coincidem, quando algo resiste ao espelhamento. A solidão, longe de ser doença, é a condição de toda presença autêntica.
Somente quando o ruído cessa é que o outro pode, enfim, ser escutado. E talvez, nesse silêncio restaurado, algo do humano sobreviva.
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