Existe algo profundamente filosófico no Carnaval.
Durante alguns dias, pessoas suspendem as regras, vestem
fantasias, pintam o rosto, trocam o nome, o papel, o gênero, a classe, o
status. O advogado vira querubim. A professora vira Cleópatra. O tímido vira
exagero. O contido vira excesso...
Mas a pergunta que ecoa por trás da festa pode ser
desconfortável: a máscara esconde… ou revela?
O filósofo russo Mikhail Bakhtin enxergava o carnaval
medieval como um momento de inversão das hierarquias: o rei podia virar bobo, o
bobo podia virar rei. Era o “mundo ao avesso”. Mas não se tratava apenas de
bagunça. Era crítica.
No riso, havia questionamento.
No exagero, havia denúncia.
No grotesco, havia liberdade.
O Carnaval não seria apenas fuga — seria uma forma simbólica
de confrontar o poder e as normas que nos moldam o ano inteiro. Talvez por isso
a máscara seja tão poderosa: ela cria uma distância entre o eu cotidiano e o eu
possível...
Em A República, Platão descreve a famosa alegoria da
caverna: prisioneiros que veem apenas sombras projetadas na parede e acreditam
que aquilo é a realidade. E se o Carnaval fosse uma saída momentânea da
caverna? Ou — mais inquietante ainda — e se o cotidiano fosse a verdadeira
caverna?
Durante o ano, desempenhamos papéis sociais rigidamente
estruturados. Somos profissionais, pais, filhas, cidadãos exemplares. Agimos
segundo expectativas invisíveis. Repetimos discursos. Controlamos impulsos. No
Carnaval, a fantasia rompe a parede das sombras. Mas será que enxergamos a luz
— ou apenas escolhemos outras sombras mais coloridas?
Como escreveu Friedrich Nietzsche em Além do Bem e do Mal: “Todo
espírito profundo precisa de uma máscara”. Para ele, a máscara não é falsidade
— é proteção daquilo que é intenso demais para ser exposto cruamente. Às vezes,
precisamos do disfarce para suportar a própria verdade. No Carnaval, talvez
experimentemos versões mais autênticas de nós mesmos justamente porque estamos
“escondidos”. Sem o peso do julgamento cotidiano, ousamos mais. Desejamos mais.
Rimos mais alto.
A máscara pode ser o caminho indireto para a verdade.
Carl Jung chamou de persona a máscara social que usamos para
nos adaptar ao mundo.
“A persona é um sistema complicado de relações entre a
consciência individual e a sociedade, uma espécie de máscara destinada, por um
lado, a causar uma determinada impressão nos outros e, por outro, a ocultar a
verdadeira natureza do indivíduo.”
Ela é necessária. Sem ela, a convivência seria impossível.
Mas quando nos confundimos com essa máscara, perdemos contato com aquilo que
somos além das expectativas externas. O Carnaval cria um curto-circuito na
persona. Ao vestir uma fantasia, evidenciamos que todas as outras também são
fantasias. O terno é uma fantasia. O uniforme é uma fantasia.O perfil
profissional nas redes sociais é uma fantasia.
Talvez a pergunta mais incômoda seja:
Vivemos mascarados o ano inteiro — e só admitimos isso em
fevereiro?
A filosofia é o exercício de sair da caverna.É o desconforto
de tirar a máscara.É o exame da própria identidade.Se o Carnaval nos permite
experimentar identidades, a filosofia nos pergunta:
Quem está por trás da fantasia? Quem decide qual máscara
usamos? Existe um “eu verdadeiro” ou somos apenas um conjunto de performances?
Talvez o Carnaval não seja o reino da ilusão — mas um
laboratório existencial.
Ao nos vestirmos de outro, revelamos desejos reprimidos. Ao
exagerarmos traços, evidenciamos tensões internas. Ao brincar com papéis, percebemos
que identidade é construção.A máscara pode ser mentira. Mas pode ser também um
espelho.
E talvez a maior provocação filosófica do Carnaval seja
esta:
Quando a festa acaba e a fantasia cai, quem realmente
permanece? O personagem... Ou o autor?
No fim das contas, talvez o Carnaval não seja apenas uma
celebração da aparência — mas um lembrete incômodo de que somos feitos de
camadas, encenações e escolhas.
E a filosofia?
Ela não nos proíbe de usar máscaras.
Ela apenas nos pergunta se sabemos que estamos usando uma...