Duas pessoas estão discutindo sobre um assunto qualquer.
A diferença não está no que os dois sabem. Dependendo do
assunto, eles sabem mais ou menos a mesma coisa, isto é, quase nada.Se a
diferença não está no conhecimento, então está em outro lugar.
A pergunta “devo ter uma opinião sobre tudo?” esconde duas
outras. A primeira é se o assunto me diz respeito, e a resposta é sim. A
segunda é se eu tenho razões suficientes para dizer como deveria ser, e para
quase todo mundo a resposta é não. Boa parte das opiniões nasce da confusão
entre as duas. Como o assunto importa, sentimos que precisamos ter uma posição
sobre ele; mas a importância de uma pergunta não acrescenta nada ao que
realmente sabemos sobre a resposta. Se acrescentasse, as perguntas sobre a
morte, que importam a todo mundo, seriam as mais bem respondidas que existem.
A língua portuguesa guardou uma pista sobre o que uma
opinião deveria ser. O verbo achar vem do latim “afflare”, que queria dizer
soprar sobre alguma coisa; ao que parece, foi na linguagem da caça, em que o
cão fareja até topar com a presa, que ele passou a significar encontrar, o
sentido que ainda tem quando dizemos que achamos a chave do carro. Quem diz
“acho” está dizendo, sem perceber, que procurou e encontrou.
O que diz a filosofia ? Os primeiros são os dogmáticos, como
Aristóteles, Epicuro e os estoicos, que acreditam ter achado a verdade. Os
segundos são os filósofos da Academia, a escola fundada por Platão : eles
afirmam que a verdade não pode ser achada. Os terceiros são os céticos. A
palavra vem do grego skeptikós (σκεπτικός), formada a partir de um verbo que
quer dizer olhar com atenção, examinar; o cético é, antes de tudo, alguém que
ainda está examinando.
O que leva o cético a parar de afirmar é uma experiência que
se repete. Ele examina os argumentos de um lado, depois os do outro, e descobre
que eles se equilibram, que nenhum tem força para derrotar o outro. O cético
continua com a pergunta nas mãos e segura apenas o juízo, da mesma maneira que
alguém segura a caneta antes de assinar um contrato que ainda não leu. Daí a
definição :
O ceticismo é uma capacidade de opor umas às outras, de
qualquer maneira, as coisas que aparecem e as que são pensadas, de modo que,
pela força igual dos argumentos opostos, chegamos primeiro à suspensão do juízo
e depois à ataraxia, isto é, à ausência de perturbação
A resposta do senso comum a tudo isso é forte e precisa
aparecer inteira. Numa democracia, quem decide o rumo do país são os cidadãos,
e quem se recusa a ter opinião acaba entregando a decisão aos outros, em geral
aos que falam mais alto. Em algumas situações, a neutralidade favorece o lado
mais forte, e quem assiste a uma injustiça sem tomar posição já tomou uma. E
existem perguntas cuja resposta não está em disputa: quem diz suspender o juízo
sobre a forma da Terra ou sobre a eficácia das vacinas finge uma dúvida que os
fatos não autorizam.
O senso comum acerta nas duas últimas coisas. Há perguntas
decididas, e a suspensão do juízo é o resultado de um equilíbrio encontrado
depois do exame, e não uma decisão tomada antes dele; onde um lado tem as
provas e o outro só tem a teimosia, não existe equilíbrio nenhum para
respeitar.
Também é verdade que a omissão tem consequências. Mas a
primeira ideia, a de que o bom cidadão precisa ter opinião sobre tudo, produz o
contrário do que promete.
O mentiroso precisa conhecer a verdade para escondê-la; o
outro não precisa saber nada, porque o que diz não está preso aos fatos, só à
impressão que quer causar. De onde vem a abundância desse tipo de fala ? : ela
aparece sempre que as obrigações ou as oportunidades de falar sobre um assunto
excedem o que a pessoa sabe sobre ele, e cresce com a convicção, muito
difundida, de que o cidadão de uma democracia tem a responsabilidade de ter
opinião sobre tudo, ou pelo menos sobre tudo o que diz respeito à condução dos
assuntos do seu país.
Uma frase protege quase todas as opiniões sem base: “todo
mundo tem direito à sua opinião”. Num sentido, é verdadeira e importante:
ninguém pode ser preso ou calado por pensar o que pensa. No outro, ter direito
a uma opinião significa ter razões que autorizam a sustentá-la, do mesmo modo
que ter direito a uma herança significa ter os documentos que provam o
parentesco, e nesse sentido a frase é falsa. Patrick Stokes, professor de
filosofia na Universidade Deakin, na Austrália, conta que todo ano avisa os
alunos de que a frase deixa de valer quando eles entram na sala: ali, cada um
só tem direito ao que consegue defender com argumentos. O erro que ele corrige
é tratar a liberdade de dizer uma coisa como se fosse uma autorização para
acreditar nela.
As redes sociais deveriam ser o paraíso do cético. Nunca foi
tão fácil ver gente discordando; qualquer assunto, aberto no celular, mostra em
segundos os dois lados brigando.A discordância está entre os motivos mais
fortes para suspender o juízo: quando há sobre um assunto uma disputa que
ninguém consegue decidir, tanto na vida comum quanto entre os filósofos, não
temos como escolher nem como rejeitar nenhum dos lados . Mesmo assim, quase
ninguém sai do celular mais cético do que entrou, porque a discordância chega
ao leitor já selecionada, e selecionada de um jeito que impede o equilíbrio.
A publicidade trabalha num ponto anterior a todos esses. Ela
quase nunca argumenta; apenas repete. E a repetição funciona por razões que
David Hume descreveu no primeiro livro do Tratado da natureza humana, de 1739.
Para Hume, a diferença entre acreditar numa ideia e apenas imaginá-la está na
força e na vivacidade com que ela se apresenta à mente, e não em algum conteúdo
a mais ; e uma das maneiras mais eficazes de dar força a uma ideia é
apresentá-la muitas vezes. Hume arrisca dizer que mais da metade das opiniões
que prevalecem entre os seres humanos se deve à educação, isto é, à repetição a
que fomos expostos desde a infância, e que essas opiniões pesam mais do que as
que devemos ao raciocínio ou à experiência
A repetição é uma causa excelente de crenças e uma razão
péssima para elas. Ver mil vezes a família sorridente em volta da mesa do café,
com o pote de margarina no centro, explica por que a mão vai sozinha até aquele
pote no supermercado, mas não diz nada sobre a margarina em si. A distinção
entre o que causa uma crença e o que a justifica vale muito além da propaganda.
Quando perguntamos de onde veio uma opinião nossa, quase sempre encontramos uma
causa, seja o comentarista que vemos toda noite, seja a frase que o grupo
repete; encontrar uma razão é mais raro.
Há quem reaja à enxurrada pelo lado oposto. Segundo o
Instituto Reuters, ligado à Universidade de Oxford, 47% dos brasileiros dizem
evitar as notícias às vezes ou com frequência. Seria tentador ver nisso uma
forma de ceticismo, e seria um erro. O cético suspende o juízo depois de
examinar, e o que ele suspende é o assentimento, nunca a atenção. Quem desliga
o noticiário para não saber de nada abandonou a pergunta; quem opina sobre tudo
encerrou a pergunta antes da hora. Em nenhum dos dois casos há alguém
examinando a pergunta.
Hoje, existe uma abundância de fala sem compromisso com a
verdade: as várias formas de ceticismo que negam que tenhamos acesso confiável
a uma realidade objetiva e, portanto, que possamos saber como as coisas
realmente são. Quem desiste de descobrir como as coisas são passa a cultivar
outra disciplina, a de ser fiel a si mesmo e dizer com sinceridade o que sente;
e como o próprio eu não é mais fácil de conhecer do que o mundo, a sinceridade,
nessas condições, vira ela mesma uma forma de falar sem compromisso com a
verdade. É uma objeção forte. Quem já ouviu, no meio de uma discussão, o “cada
um tem a sua verdade” sabe que essa frase serve para encerrar o exame, e sabe
também que ela costuma vir de alguém muito seguro da própria opinião.



