Sem dúvida, a pandemia mais perigosa que já atingiu a
humanidade é a praga da desinformação deliberada, da ilusão em massa e da
crença infundada que está assolando a sociedade do século XXI. Seja gerada por
governos, pela indústria de combustíveis fósseis, pela mídia corrupta, por
interesses corporativos, pelo lobby anticientífico, por fanáticos religiosos,
por políticos e ideólogos extremistas, por pessoas bem-intencionadas ou por
teóricos da conspiração lunáticos, uma avalanche global de completo absurdo está
rapidamente engolindo a espécie humana.
A avalanche de informações falsas é facilitada e incentivada
pelas redes sociais e amplificada pela proliferação de dados falsos gerados por
inteligência artificial, que agora inundam a internet. No curto prazo, pode
parecer irritante, até mesmo ocasionalmente divertido. No longo prazo, porém,
prepara o terreno para o fracasso dos governos, a desintegração dos negócios, o
colapso da ordem social e, eventualmente, da própria civilização, diante da
crescente paralisia causada pela dependência de dados falsos.
A revolução da IA tem o potencial de acelerar o caos e a
disfunção existentes no ecossistema de informação mundial, intensificando
campanhas de desinformação e minando os debates públicos baseados em fatos,
necessários para lidar com grandes ameaças urgentes, como guerra nuclear,
pandemias e mudanças climáticas.
A desinformação atingiu proporções alarmantes. Ela
representa um risco para a paz internacional, interfere na tomada de decisões
democráticas, põe em perigo o bem-estar do planeta e ameaça a saúde pública.
Sem fontes de informação confiáveis e precisas, não podemos esperar deter as
mudanças climáticas, tomar decisões democráticas ponderadas ou controlar uma
pandemia global.
Embora a mentira seja tão antiga quanto a política ou o
comércio, a desinformação na era moderna atingiu novos patamares com a campanha
de uma empresa de combustíveis fósseis para desacreditar a ciência climática e
o ataque em massa à saúde pública por parte de pessoas profundamente ignorantes
durante a pandemia de Covid-19.
A desinformação – a disseminação deliberada de informações
falsas – é uma nova forma de assassinato: as estatísticas mostram que as taxas
de mortalidade por Covid foram muito maiores entre os não vacinados, muitos dos
quais foram influenciados por mentiras espalhadas por outros. Por exemplo, no
período estudado, houve 16.500 mortes nos EUA entre pessoas não vacinadas,
5.400 entre pessoas que receberam uma dose da vacina e apenas 285 mortes entre
pessoas que receberam doses de reforço. Assim, espalhar mentiras sobre as
vacinas contribuiu para matar três vezes mais pessoas não vacinadas do que as
vacinadas com uma dose e 55 vezes mais do que as vacinadas com o esquema
completo
Alguns pesquisadores consideram a enxurrada de absurdos como
uma nova forma de guerra, travada por uma parcela delinquente da humanidade
contra todos – inclusive eles próprios – usando a internet global como sistema
de disseminação.A guerra de informação cibernética tornou-se uma ameaça
existencial por si só . Além disso os pilares do autogoverno democrático
moderno – lógica e verdade – estão sendo ameaçados e valores morais
fragilizados baseiam a maioria das decisões mundiais.
É preocupante refletir que a tecnologia da informação
moderna está levando a sociedade global de volta a uma Idade das Trevas
medieval, marcada por superstição, preconceito e crenças falsas.Também é
evidente que as redes sociais deram aos psicopatas e golpistas as chaves do
reino. Agora, compensa muito, com pouco investimento inicial, gastar tempo e
energia criando e disseminando desinformação online.
O anticientificismo emergiu como uma força dominante e
altamente letal, que ameaça a segurança global tanto quanto o terrorismo e a
proliferação nuclear . A cumplicidade da mídia – mundial, nacional e local,
tradicional e redes sociais – na disseminação de informações falsas sob o
pretexto de “jornalismo equilibrado” é evidente ao se dar o mesmo tempo e
importância para o que é verdade e mentira
É claro que os humanos mentem uns sobre os outros há
milênios – espalhar absurdos não é novidade. A mudança existencial é que a
humanidade está ameaçada por riscos catastróficos – nenhum dos quais pode ser
resolvido sem uma compreensão sólida e factual de suas causas. Juntos, esses
riscos destruirão nossa civilização – e potencialmente nossa espécie.
A Era da Mentira está destruindo a própria qualidade da qual
os humanos mais dependem para sobreviver: a capacidade de conhecer, aprender,
compreender e pensar e agir racionalmente.