Muitas pessoas,em um determinado momento , falam em se
encontrar
Encontrar . Pense nas companhias que essa palavra mantém.
Você encontra suas chaves atrás das sacolas de compras do mercado. Você
encontra uma nota de cinco reais no bolso de um casaco que você nem se lembra
de um dia ter usado.
Encontrar pressupõe algo que já existe, inteiro e à espera,
extraviado por nada mais do que um descuido, recuperável se você apenas refazer
seus passos com paciência suficiente e, possivelmente, um recuo. Toda a
gramática da autodescoberta (a dita autoajuda) se apoia nesse objeto enterrado,
nessa pequena relíquia do seu verdadeiro eu, jazendo em algum lugar físico ou “metafisico”.
Alguns já se propuseram a esta busca escrevendo um diário,
fazendo longas caminhadas pela natureza, num retiro silencioso ou através de um
influencer da moda.Basta atravessar qualquer aeroporto e a livraria lhe venderá
o mapa, prateleiras inteiras de livros em tons pastel prometendo que seu eu
autêntico está a quatro pequenos hábitos e um armário organizado de distância.
Existem testes bobos que lhe atribuem um número, como se a alma tivesse um CEP.
Há um gênero confessional nas redes sociais , o post "larguei meu emprego
de seis dígitos para me encontrar" , que chega invariavelmente acompanhado
de uma foto do autor pensativo contra um horizonte distante e termina, sempre,
com a revelação de uma prática de coaching que agora aceita clientes.
De onde surgiu a ideia de que existe um destino? Porque é
uma ideia, com data de nascimento, e não um fato inerente à espécie. Durante a
maior parte da história humana registrada, uma pessoa era a soma de sua
posição. Filha de, viúva de, terceiro filho sem terras para herdar, jurado e
batizado naquela paróquia, devendo obrigações a todos os lados numa cadeia que
ninguém se preocupava em questionar. Você sabia quem você era da mesma forma
que conhecia sua própria rua. Então, por volta da época de Rousseau, o cenário
mudou e o europeu culto começou a suspeitar que, por baixo de todas as
obrigações e pertencimentos, existia um eu original, irrepetível, com sua
própria nota verdadeira a ser ouvida, e que a tarefa moral de uma vida era
descer e ouvi-la. Mesmo Montaigne, considerado o santo padroeiro da
introspecção, não achava que estava desenterrando algo acabado. Ele chamava as
peças de "essais" , tentativas , o eu como um rascunho que você
continua revisando e nunca pode chamar de concluído.
Acredito que o eu não está esperando em lugar nenhum. Ele
está sendo construído, agora mesmo enquanto você lê isto, e a matéria-prima de
que ele é feito é a sua atenção. Milhões de coisas pressionam os sentidos a
cada instante e quase nenhuma delas entra em nossa experiência, porque não nos
interessam, e o que chamamos de experiência é simplesmente a fatia do mundo à
qual concordamos em prestar atenção.O estóico Marco Aurélio havia chegado a
algo semelhante e mais estranho: a alma assume a cor daquilo em que se detém e
se tinge com seus próprios pensamentos.Ser bom é em grande parte uma questão de
quão claramente e amorosamente você consegue ver o que está realmente à sua
frente, uma pessoa real, digamos, em vez da caricatura conveniente dela que
você mantém por perto para poupar o esforço A maneira como você presta atenção
altera aquilo que está ali para ser observado. Olhe para uma árvore como
madeira e é madeira que aparece. Olhe para ela como um ser vivo e outra coisa
aparece. O ato de olhar nunca é neutro. Ele funciona, tanto na árvore quanto em
você.
Se você é feito daquilo a que presta atenção, então vale a
pena perguntar, com certa urgência, o que está chamando sua atenção no momento.
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