“ O inferno está vazio , e todos os demônios estão aqui”
Shakespeare
Houve um tempo em que essa frase parecia um exagero poético.
Agora, soa como uma manchete de jornal. O mundo está em chamas, às vezes
literalmente, com a multiplicação dos desastres climáticos, mas também
metaforicamente, no caos frenético da geopolítica, da economia, da cultura e
das convulsões sociais.
Vivemos numa era em que a certeza desmoronou, em que regras
antigas, sejam de diplomacia, governança ou bom senso, foram descartadas como
um sistema operacional obsoleto. Cada dia traz um novo absurdo: um novo
escândalo político, uma moeda em queda livre, uma guerra eclodindo ou se
intensificando, um bilionário dizendo algo tão insano que desafia a sátira. O
cenário global não parece mais um tabuleiro de xadrez onde jogadores racionais
traçam estratégias; é um cassino, e todos somos forçados a jogar, quer queiramos
ou não.
Geopoliticamente, estamos em uma nova Guerra Fria, mas desta
vez, o inimigo não é apenas outra superpotência, mas a própria
imprevisibilidade . A antiga estabilidade de um mundo unipolar ou mesmo bipolar
desapareceu. A guerra na Ucrânia continua como uma novela pouco assistida pois
o roteirista não sabe o seu final. O Oriente Médio continua sendo uma panela de
pressão, com conflitos sobrepostos a ressentimentos seculares. Os EUA e a China
jogam um jogo cada vez mais perigoso de risco econômico e militar, enquanto
nações menores lutam para evitar se tornarem danos colaterais. Mesmo em regiões
tradicionalmente estáveis, o extremismo, o nacionalismo e os movimentos
antidemocráticos estão em ascensão, corroendo as estruturas que mantinham o
mundo do pós-guerra unido.
Economicamente, as promessas da globalização não vingaram,
transformando-se num amargo coquetel de inflação, dívida e desigualdade. Os
ultrarricos nunca estiveram tão ricos, e, no entanto, para a maioria das
pessoas, a vida está ficando mais difícil. O custo de vida está disparando, os
salários não acompanham o ritmo e a classe média, outrora a espinha dorsal das
sociedades prósperas, está sendo esmagada até o esquecimento. O sistema
financeiro, sustentado por intermináveis pacotes de estímulo e modelos de
crescimento insustentáveis, parece um castelo de cartas à espera da próxima
rajada de vento. Enquanto isso, revoluções tecnológicas, como IA, criptomoedas
e automação, prometem salvação ou desastre, dependendo para quem você faz a
pergunta. Elas nos libertarão do trabalho árduo ou apenas nos tornarão
obsoletos?
Socialmente, o próprio conceito de verdade tornou-se
negociável . Numa era de sobrecarga de informação, as pessoas estão mais
desinformadas do que nunca. A realidade deixou de ser algo sobre o qual
concordamos coletivamente, passando a ser uma questão de em qual câmara de eco
algorítmica cada um se encontra. O discurso político degenerou em performance
artística, com a indignação como moeda corrente e a nuance como vítima. A
cultura do cancelamento, a desinformação e as teorias da conspiração criaram um
clima onde o diálogo parece impossível.
Culturalmente, o mundo está ao mesmo tempo hiperfragmentado
e homogeneizado. Por um lado, tradições e línguas locais estão desaparecendo à
medida que a cultura pop global se espalha como fogo em palha seca. Por outro,
as políticas identitárias e o tribalismo criaram campos de batalha culturais
onde cada opinião, livro ou obra de arte é examinada sob o microscópio da
pureza ideológica. Ironicamente, enquanto nos foi prometida uma era de
esclarecimento através da informação livre, estamos, em vez disso, afogados em
ruído, refugiando-nos na nostalgia, estetizando o passado porque o futuro
parece cada vez mais incerto.
Por que isso está acontecendo? Alguns dizem que é o declínio
inevitável de um império — o americano, o capitalista ou até mesmo o da
civilização ocidental. Outros culpam as redes sociais, a ganância, a quebra da
confiança nas instituições ou simplesmente a velocidade vertiginosa das
mudanças. A verdade provavelmente reside em todos esses fatores. O mundo tem
funcionado com sistemas projetados para uma era diferente, modelos econômicos
construídos para a Revolução Industrial, instituições políticas criadas após a
Segunda Guerra Mundial e normas sociais forjadas em uma era anterior à
internet. Estamos tentando navegar pelo século XXI com mapas do século XX, e
eles já não fazem sentido .
No entanto, a história nos lembra que o caos não é o fim da
história. Toda era de convulsão acaba por gerar algo novo. O Renascimento
sucedeu a Peste Negra, uma era em que a morte era tão onipresente que parecia
que a própria civilização poderia se dissolver. Contudo, dos escombros dessa
devastação surgiu uma explosão de arte, ciência e humanismo que remodelou o
mundo. A Revolução Industrial, apesar de toda a sua exploração e deslocamento,
lançou as bases para a prosperidade e o progresso modernos. Os horrores das
duas Guerras Mundiais, o temor existencial da Guerra Fria, a Grande Depressão,
cada um deles pareceu, na época, ser sinal de um colapso iminente. E, no
entanto, de cada um emergiu renovação, novas ideias e, contra todas as
expectativas, uma reafirmação do espírito humano .
O mundo pode parecer ingovernável, mas também está repleto
de possibilidades . Em meio ao ruído e às chamas, há aqueles que se recusam a
sucumbir ao desespero. Há cientistas trabalhando incansavelmente para combater
as mudanças climáticas, para expandir as fronteiras da medicina, para criar
soluções sustentáveis que um dia poderão transformar as crises de hoje no
renascimento de amanhã. Há artistas e escritores, extraindo significado do
caos, recusando-se a deixar que a verdade se afogue na avalanche de desinformação.
Há ativistas e pensadores, silenciosamente remodelando economias, reinventando
a educação, reconectando-nos aos valores mais profundos que tornam a
civilização digna de ser preservada.
Mas em momentos como este, é inevitável enxergar apenas a
escuridão, acreditar que o desmoronamento que testemunhamos é um declínio
irreversível. Embora a história sussurre outra verdade: a de que os seres
humanos não são meros passageiros nas correntes da destruição. Somos também
criadores , construtores e sonhadores . O velho mundo pode estar se desfazendo,
mas é nesses momentos de ruptura que as sementes de novos paradigmas são
semeadas.Porém , com uma análise perspectiva, destituída de unilateralidade, é
quase impossível vislumbrar onde estão essas sementes,quem serão os autores do
seu plantio,qual é a expectativa de esperança num planeta que escolhe os seus
cavaleiros do apocalipse por ignorância e influência programada ¿¿¿
Sim, os demônios estão por aqui, dançando descontroladamente
nas chamas da incerteza.
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