sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

a filosofia e o carnaval

 








Existe algo profundamente filosófico no Carnaval.

Durante alguns dias, pessoas suspendem as regras, vestem fantasias, pintam o rosto, trocam o nome, o papel, o gênero, a classe, o status. O advogado vira querubim. A professora vira Cleópatra. O tímido vira exagero. O contido vira excesso...

Mas a pergunta que ecoa por trás da festa pode ser desconfortável: a máscara esconde… ou revela?

O filósofo russo Mikhail Bakhtin enxergava o carnaval medieval como um momento de inversão das hierarquias: o rei podia virar bobo, o bobo podia virar rei. Era o “mundo ao avesso”. Mas não se tratava apenas de bagunça. Era crítica.

No riso, havia questionamento.

No exagero, havia denúncia.

No grotesco, havia liberdade.

O Carnaval não seria apenas fuga — seria uma forma simbólica de confrontar o poder e as normas que nos moldam o ano inteiro. Talvez por isso a máscara seja tão poderosa: ela cria uma distância entre o eu cotidiano e o eu possível...

Em A República, Platão descreve a famosa alegoria da caverna: prisioneiros que veem apenas sombras projetadas na parede e acreditam que aquilo é a realidade. E se o Carnaval fosse uma saída momentânea da caverna? Ou — mais inquietante ainda — e se o cotidiano fosse a verdadeira caverna?

Durante o ano, desempenhamos papéis sociais rigidamente estruturados. Somos profissionais, pais, filhas, cidadãos exemplares. Agimos segundo expectativas invisíveis. Repetimos discursos. Controlamos impulsos. No Carnaval, a fantasia rompe a parede das sombras. Mas será que enxergamos a luz — ou apenas escolhemos outras sombras mais coloridas?

Como escreveu Friedrich Nietzsche em Além do Bem e do Mal: “Todo espírito profundo precisa de uma máscara”. Para ele, a máscara não é falsidade — é proteção daquilo que é intenso demais para ser exposto cruamente. Às vezes, precisamos do disfarce para suportar a própria verdade. No Carnaval, talvez experimentemos versões mais autênticas de nós mesmos justamente porque estamos “escondidos”. Sem o peso do julgamento cotidiano, ousamos mais. Desejamos mais. Rimos mais alto.

A máscara pode ser o caminho indireto para a verdade.

Carl Jung chamou de persona a máscara social que usamos para nos adaptar ao mundo.

“A persona é um sistema complicado de relações entre a consciência individual e a sociedade, uma espécie de máscara destinada, por um lado, a causar uma determinada impressão nos outros e, por outro, a ocultar a verdadeira natureza do indivíduo.”

Ela é necessária. Sem ela, a convivência seria impossível. Mas quando nos confundimos com essa máscara, perdemos contato com aquilo que somos além das expectativas externas. O Carnaval cria um curto-circuito na persona. Ao vestir uma fantasia, evidenciamos que todas as outras também são fantasias. O terno é uma fantasia. O uniforme é uma fantasia.O perfil profissional nas redes sociais é uma fantasia.

 

Talvez a pergunta mais incômoda seja:

Vivemos mascarados o ano inteiro — e só admitimos isso em fevereiro?

A filosofia é o exercício de sair da caverna.É o desconforto de tirar a máscara.É o exame da própria identidade.Se o Carnaval nos permite experimentar identidades, a filosofia nos pergunta:

Quem está por trás da fantasia? Quem decide qual máscara usamos? Existe um “eu verdadeiro” ou somos apenas um conjunto de performances?

Talvez o Carnaval não seja o reino da ilusão — mas um laboratório existencial.

Ao nos vestirmos de outro, revelamos desejos reprimidos. Ao exagerarmos traços, evidenciamos tensões internas. Ao brincar com papéis, percebemos que identidade é construção.A máscara pode ser mentira. Mas pode ser também um espelho.

E talvez a maior provocação filosófica do Carnaval seja esta:

Quando a festa acaba e a fantasia cai, quem realmente permanece? O personagem... Ou o autor?

No fim das contas, talvez o Carnaval não seja apenas uma celebração da aparência — mas um lembrete incômodo de que somos feitos de camadas, encenações e escolhas.

E a filosofia?

Ela não nos proíbe de usar máscaras.

Ela apenas nos pergunta se sabemos que estamos usando uma...

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