sábado, 14 de dezembro de 2019

espiões de Deus


      a tela acima é de autoria de de Kooning (pintada quando ele apresentava os primeiros sintomas de Alzheimer)

Hemingway escreveu que o envelhecimento vem de duas formas : lento e,de repente , súbito
a forma lenta é muito bem conhecida e se sucede num ritmo inevitável e por isso mesmo mais perceptível

a humanidade nos presentou no ultimo século com seu maior presente : 30 anos a mais de vida

precisamos entender o que fazer com este período já que ele não veio com manual de instruções

do nascimento à idade de 21 anos são oito mil dias
daí até a meia idade : mais oito mil
dos 40-45 anos até os 65 viveremos mais 8 mil dias
50% das pessoas podem vivar mais 8 mil dias

então temos uma tarefa de saber como viver aquilo que seria um terço do tempo de nossa vida adulta

Em Massachutes , o laboratório Agelab vem estudando o envelhecimento
Uma interessante ferramenta chamada AGNES (aging gain now empathy system) possibilita que pessoas jovens experimentem as dificuldades que idosos enfrentam no seu dia a dia
Uma roupa especial , luvas ,óculos etc simulam as dores , restrições etc que surgem pelo desgaste do tempo
A idéia é reforçar as medidas que podem ser tomadas com o intuito de minimizar os impactos (no momento) inevitáveis do envelhecer

a cada 8 segundos um baby boomer faz 73 anos (baby boomer é uma denominação para as pessoas que nasceram logo após a segunda guerra mundial e que representam bem a geração que está envelhecendo)

por enquanto a medicina procura entender a nossa decrepitude : talvez envelhecer não seja uma condição a ser manejada mas um erro a ser corrigido

a verdadeira condição da velhice é a incapacidade fisica de nos esquecer de nós mesmos

Shakespeare disse que o velho acaba se tornando o espião de Deus

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

atitude



muitas de nossas atitudes e julgamentos sobre os dilemas da vida são baseadas nas nossas crenças e pré conceitos , alguns deles fundamentados por valores
mas na maioria das vezes tudo o que norteia as nossas opiniões não são previamente avaliados de modo crítico

crenças e valores provêm da base moral e se ajustam aleatoriamente quando nos sujeitamos a uma opinião e consequentemente uma ação

a verdadeira filosofia é a analise e a clarificação dos conceitos e relações de formação da verdadeira moralidade e como ela pode ser construída ou reformada

na prática médica os dilemas morais pressupõem uma disposição e uma habilidade para que sejam questionados e assim justificar uma conduta

mas o que vemos hoje na formação médica é a técnica preponderante em detrimento da formação humanística
desta forma a bioética é uma necessidade urgente a permear o dia a dia de quem cuida...

estudantes da área de saúde que não entendem o humanismo como disciplina imprescindível para o exercicio do atendimento estão despidos do fundamento do cuidar....estão cegos pela luz da doença e não enxergam de fato o paciente

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

o valor da vida



 O modo como funciona o sistema de saúde é uma das mais claras e visíveis expressões das atitudes de uma sociedade em relação ao valor da vida
Além disso , é uma das mais importantes dimensões do modo como nós somos como indivíduos e de como demonstramos o valor e o respeito que atribuímos às outras vidas

Nas decisões do dia a dia médico nós,de fato , colocamos diferentes valores à vida

Mas a pergunta fundamental é : que tipo de vida tem valor e em virtude do que esta vida tem valor ?

As perguntas essenciais continuam polêmicas : quando a vida humana começa ? (no momento da concepção ?) . A vida mantém o seu mesmo valor ? ( no adulto cheio de saúde ou no idoso demenciado ?)

Nosso interesse no valor da vida não é simplesmente uma questão de vida ou morte.Nós mostramos como valorizamos os outros pelo modo como os tratamos e pelo preço que estamos dispostos a pagar , ou pelos esforços que estamos preparados para fazer , para salvar suas vidas

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

a medicalização da vida




A medicalização é uma transformação das condições humanas , das suas capacidades e incapacidades, através de uma intervenção farmacológica.Esse processo ultrapassa a questão restrita ao adoecimento para abranger as propostas , por exemplo , de mudanças de estilo de vida.

A modernidade nos trouxe a constatação de um perigoso encontro : aquele que busca a solução de seus problemas em um comprimido e o prescritor que de modo inconseqüente entende que toda e qualquer terapia é farmacológica.Vamos focar na questão dos antidepressivos : estudos demonstram que somente uma em cada 9 pessoas vai se beneficiar com o seu uso.As 8 restantes são desnecessariamente submetidas aos riscos dos efeitos adversos.O tamanho do efeito destas drogas é modesto , ligeiramente superior quando comparado ao placebo e baseado em escalas de avaliação de questionável relevância clinica.

As alterações de humor comumente refletem as circunstâncias variáveis do cotidiano.A velha frase “ o tempo é o senhor da razão” representa a melhor conduta na maioria dos casos.Muitas manifestações depressivas respondem com sucesso às intervenções psicológicas que não incluem a dependência farmacológica e melhoram substancialmente o desfecho sintomático.

A medicalização já foi entendida como referência do poder médico , segundo as palavras do psicanalista Jean Clavreul.Uma espécie de primazia sobre o paciente.Porém evoluímos para um processo também de escape da medicalização da esfera médica na medida em que a informação socializou e vulgarizou o acesso aos fármacos.Os pacientes agora ocupam uma posição ativa agindo como agentes de mudança.Porém , sem perceber ,acabam se transformando em consumidores de saúde.

Na procura por segurança a arte de cuidar se esvai substituída por uma prescrição mal substanciada,sem a preocupação com sua essência,seu sentido.Mas que medicina é possível para subverter ou , pelo menos , contrapor a isso ?Muito provavelmente aquela que ficou no discurso acadêmico tão fragilizado pelos descasos com a saúde.

Infelizmente estamos numa era onde o imperativo é medicalizar.Não apenas as condições objetivas,como uma terapêutica , mas também as subjetivas , como as nossas angústias .                      

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

a vida em números



Em 1825 , o ministro da justiça francês ordenou a criação de um banco de dados sobre os crimes que aconteciam no país.Foi a primeira vez que a matemática procurou explicar o comportamento humano.
Mais tarde , a “física social” , passou a explorar a possibilidade que a vida , como os planetas , teria uma trajetória mecanicista

A filosofia começou a se importar com a idéia inquietante que entre os caprichos da escolha , da oportunidade e das circunstâncias, a matemática pudesse nos dizer o que é ser humano

.Adolphe Queteled , astrônomo belga , em 1830, já entendia que , em algum nível , a vida poderia ser quantificada e prevista.Hoje isso é inquestionável : podemos nos aproximar de um resultado quase exato em muitas analises sobre o comportamento das pessoas.

A física nos ensina que podemos esperar números confiáveis quando estamos analisando sistemas desordenados.Ou seja, regularidades emergem de nossas vidas individuais quando vistas coletivamente e podem ser mensuradas.Podemos determinar os números que surgem das nossas ações : a taxa de natalidade ou mortalidade , o índice de educação etc.Porém, o detalhe significativo é aprender algo sobre nós enquanto indivíduos se comportando dentro do coletivo.Inúmeras lições mostraram que as pessoas não bem representadas pela média

.Um exemplo anedótico : em 1965 o advogado francês André Reffray fez o que ele considerou um grande negócio : se propôs a pagar 250 francos mensais a Jeanne Calment , na época com 90 anos,na compra de seu apartamento.A expectativa média para as mulheres francesas era de 74 anos.Ele só tomaria posse do apartamento após sua morte.Infelizmente, para ele, Jeanne viveu mais 30 anos e se tornou a pessoa mais velha do mundo.André morreu antes com 77 anos.Foi o apartamento mais caro entre os negócios imobiliários para a época.Um duro aprendizado para mostrar que as pessoas não são bem representada pela média.

Podemos atestar este fato em medicina quando avaliamos medicações preventivas : para uma boa parte dos indivíduos elas não irão funcionar.Mas  devemos aplicar em nossa rotina a famosa aposta de Pascal : acreditar que o medicamento vai servir para você uma vez que as consequências serão piores do que a inconveniência de não tomá-lo.

domingo, 27 de outubro de 2019

significado



muito das nossas vidas é preenchido com atividades mundanas cujas propostas são manter o ciclo funcionando : trabalho , compras , cozinha , dormir , contas a pagar...
Sisifo,na mitologia grega , foi condenado a rolar uma grande pedra em direção ao topo de uma montanha num processo sem fim....ao atingir o ápice a pedra rolava abaixo novamente e sua tarefa , eterna,era voltar ao inicio, sempre

uma vida com significado é aquela que transcende os próprios limites e de modo importante impacta ao outro ou ultrapassa a sua própria proposta

quando percebemos que nossas vidas carecem de sentido passamos a experimentar um efeito profundamente negativo na nossa qualidade de vida

o filósofo Thomas Nagel afirma que deveríamos observar o significado de como vivemos não somente do ponto de vista interno mas de uma perspectiva externa pois existem diferentes tipos de significados para a vida, correspondentes a diferentes perspectivas através das quais deveríamos nos analisar

a mais limitada das perspectivas humanas é aquela vista através da individualidade pois o significado pode ser uma questão de grau
quando nos perguntamos se a vida tem um sentido o escopo do que chamamos "vida" pode variar

a filósofa Susan Wolf sugere que o significado surge quando a atração subjetiva encontra a atratividade objetiva

quando olhamos de um ponto individual a questão é se uma pessoa faz um impacto positivo em outro sujeito tornando a sua vida significante sob a perspectiva do outro
poucas pessoas terão vidas que sejam significativas de uma perspectiva da humanidade....qual é a diferença que você causa no mundo ?

a conclusão é que podemos ter vidas com sentido de acordo com algumas perspectivas mas a intensidade do significado diminui na medida que ampliamos nossas fronteiras
não somente as pessoas tipicamente querem mais sentido em suas vidas do que podem alcançar como mesmo o que atingem será inevitavelmente limitado

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

emocionalmente humano




Charles Darwin afirmou que 4 caracteristicas definidoras do Homo sapiens – o uso de ferramentas, a linguagem, a sensibilidade estética e a religião – estão presentes,de forma rudimentar,em outros animais.Até mesmo a moralidade,ele argumenta,teria surgido da seleção natural.Um grupo de neurocientistas liderados por Jaak Panksepp e Antonio Damasio tem desenvolvido um novo campo da ciência afetiva desde os anos 90.A base do trabalho é isolar sistemas cerebrais ligados às emoções e compará-los a regiões do cérebro que compartilhamos com outros mamíferos.Estamos aprendendo como nossos ancestrais compartilham sentimentos semelhantes aos nossos: o cérebro como uma realidade biológica compartilhada.Estamos diante de uma nova especialidade biológica : a etomologia,o estudo do comportamento animal.

A consequência tem impactado diversas especialidades : na economia,Daniel Kahneman explica os vieses,quase sempre baseados na emoção,que pontuam as decisões racionais.Na filosofia,Martha Nussbaum reintroduziu a emoção como uma forma de pseudo-julgamento

Caminhamos para um tempo onde,finalmente,a emoção é vista como uma adaptação biológica que não segue simplesmente ou altera as regras da razão mas é parte integrante dela. Mas ela seria universal? Implicita como uma marca genética ¿ Alguns historiadores e antropologistas argumentam que nós aprendemos a nos emocionar através de nossa experiência  cultural .

No livro “ How Emotions Are Made” ,Lisa Barret argumenta que as emoções são eventos conceituais,rápidas construções mentais das nossas experiências. Ao contrário de sistemas biológicos ou fisiológicos,são como o pensamento,e cada pessoa aprende muito cedo a nomeá-las e organizá-las através de convenções cognitivas e culturais.

Quase toda percepção e pensamento é emocionalmente pesado na qualidade de alguma atração ou repulsão : a verdadeira semântica dos contornos da mente.Após isso,o significado é fundamentado como o produto de nossa relaçao com o ambiente,a interação social

A evolução de nossas distintas estruturas na sociedade não poderia ter acontecido sem o avanço paralelo da vida emocional.Os humanos não teriam se tornado colaboradores,especialmente na vida não parental,se não tivessem sido submetidos a significante domesticação emocional esculpida pela constante exposição ás motivações e desejos que sempre nos acompanharam em nossa trajetória.
O entendimento das nossas vias afetivas e o preciso papel da emoção vai nos permitir um sólido entendimento de nossas necessidades,desejos e motivações para o futuro.