quarta-feira, 28 de outubro de 2026

devemos ter uma opinião sobre tudo ??

 









Duas pessoas estão discutindo sobre um assunto qualquer.

A diferença não está no que os dois sabem. Dependendo do assunto, eles sabem mais ou menos a mesma coisa, isto é, quase nada.Se a diferença não está no conhecimento, então está em outro lugar.

A pergunta “devo ter uma opinião sobre tudo?” esconde duas outras. A primeira é se o assunto me diz respeito, e a resposta é sim. A segunda é se eu tenho razões suficientes para dizer como deveria ser, e para quase todo mundo a resposta é não. Boa parte das opiniões nasce da confusão entre as duas. Como o assunto importa, sentimos que precisamos ter uma posição sobre ele; mas a importância de uma pergunta não acrescenta nada ao que realmente sabemos sobre a resposta. Se acrescentasse, as perguntas sobre a morte, que importam a todo mundo, seriam as mais bem respondidas que existem.

A língua portuguesa guardou uma pista sobre o que uma opinião deveria ser. O verbo achar vem do latim “afflare”, que queria dizer soprar sobre alguma coisa; ao que parece, foi na linguagem da caça, em que o cão fareja até topar com a presa, que ele passou a significar encontrar, o sentido que ainda tem quando dizemos que achamos a chave do carro. Quem diz “acho” está dizendo, sem perceber, que procurou e encontrou.

O que diz a filosofia ? Os primeiros são os dogmáticos, como Aristóteles, Epicuro e os estoicos, que acreditam ter achado a verdade. Os segundos são os filósofos da Academia, a escola fundada por Platão : eles afirmam que a verdade não pode ser achada. Os terceiros são os céticos. A palavra vem do grego skeptikós (σκεπτικός), formada a partir de um verbo que quer dizer olhar com atenção, examinar; o cético é, antes de tudo, alguém que ainda está examinando.

O que leva o cético a parar de afirmar é uma experiência que se repete. Ele examina os argumentos de um lado, depois os do outro, e descobre que eles se equilibram, que nenhum tem força para derrotar o outro. O cético continua com a pergunta nas mãos e segura apenas o juízo, da mesma maneira que alguém segura a caneta antes de assinar um contrato que ainda não leu. Daí a definição :

 

O ceticismo é uma capacidade de opor umas às outras, de qualquer maneira, as coisas que aparecem e as que são pensadas, de modo que, pela força igual dos argumentos opostos, chegamos primeiro à suspensão do juízo e depois à ataraxia, isto é, à ausência de perturbação

A resposta do senso comum a tudo isso é forte e precisa aparecer inteira. Numa democracia, quem decide o rumo do país são os cidadãos, e quem se recusa a ter opinião acaba entregando a decisão aos outros, em geral aos que falam mais alto. Em algumas situações, a neutralidade favorece o lado mais forte, e quem assiste a uma injustiça sem tomar posição já tomou uma. E existem perguntas cuja resposta não está em disputa: quem diz suspender o juízo sobre a forma da Terra ou sobre a eficácia das vacinas finge uma dúvida que os fatos não autorizam.

 

O senso comum acerta nas duas últimas coisas. Há perguntas decididas, e a suspensão do juízo é o resultado de um equilíbrio encontrado depois do exame, e não uma decisão tomada antes dele; onde um lado tem as provas e o outro só tem a teimosia, não existe equilíbrio nenhum para respeitar.

Também é verdade que a omissão tem consequências. Mas a primeira ideia, a de que o bom cidadão precisa ter opinião sobre tudo, produz o contrário do que promete.

O mentiroso precisa conhecer a verdade para escondê-la; o outro não precisa saber nada, porque o que diz não está preso aos fatos, só à impressão que quer causar. De onde vem a abundância desse tipo de fala ? : ela aparece sempre que as obrigações ou as oportunidades de falar sobre um assunto excedem o que a pessoa sabe sobre ele, e cresce com a convicção, muito difundida, de que o cidadão de uma democracia tem a responsabilidade de ter opinião sobre tudo, ou pelo menos sobre tudo o que diz respeito à condução dos assuntos do seu país.

Uma frase protege quase todas as opiniões sem base: “todo mundo tem direito à sua opinião”. Num sentido, é verdadeira e importante: ninguém pode ser preso ou calado por pensar o que pensa. No outro, ter direito a uma opinião significa ter razões que autorizam a sustentá-la, do mesmo modo que ter direito a uma herança significa ter os documentos que provam o parentesco, e nesse sentido a frase é falsa. Patrick Stokes, professor de filosofia na Universidade Deakin, na Austrália, conta que todo ano avisa os alunos de que a frase deixa de valer quando eles entram na sala: ali, cada um só tem direito ao que consegue defender com argumentos. O erro que ele corrige é tratar a liberdade de dizer uma coisa como se fosse uma autorização para acreditar nela.

As redes sociais deveriam ser o paraíso do cético. Nunca foi tão fácil ver gente discordando; qualquer assunto, aberto no celular, mostra em segundos os dois lados brigando.A discordância está entre os motivos mais fortes para suspender o juízo: quando há sobre um assunto uma disputa que ninguém consegue decidir, tanto na vida comum quanto entre os filósofos, não temos como escolher nem como rejeitar nenhum dos lados . Mesmo assim, quase ninguém sai do celular mais cético do que entrou, porque a discordância chega ao leitor já selecionada, e selecionada de um jeito que impede o equilíbrio.

A publicidade trabalha num ponto anterior a todos esses. Ela quase nunca argumenta; apenas repete. E a repetição funciona por razões que David Hume descreveu no primeiro livro do Tratado da natureza humana, de 1739. Para Hume, a diferença entre acreditar numa ideia e apenas imaginá-la está na força e na vivacidade com que ela se apresenta à mente, e não em algum conteúdo a mais ; e uma das maneiras mais eficazes de dar força a uma ideia é apresentá-la muitas vezes. Hume arrisca dizer que mais da metade das opiniões que prevalecem entre os seres humanos se deve à educação, isto é, à repetição a que fomos expostos desde a infância, e que essas opiniões pesam mais do que as que devemos ao raciocínio ou à experiência

A repetição é uma causa excelente de crenças e uma razão péssima para elas. Ver mil vezes a família sorridente em volta da mesa do café, com o pote de margarina no centro, explica por que a mão vai sozinha até aquele pote no supermercado, mas não diz nada sobre a margarina em si. A distinção entre o que causa uma crença e o que a justifica vale muito além da propaganda. Quando perguntamos de onde veio uma opinião nossa, quase sempre encontramos uma causa, seja o comentarista que vemos toda noite, seja a frase que o grupo repete; encontrar uma razão é mais raro.

 

Há quem reaja à enxurrada pelo lado oposto. Segundo o Instituto Reuters, ligado à Universidade de Oxford, 47% dos brasileiros dizem evitar as notícias às vezes ou com frequência. Seria tentador ver nisso uma forma de ceticismo, e seria um erro. O cético suspende o juízo depois de examinar, e o que ele suspende é o assentimento, nunca a atenção. Quem desliga o noticiário para não saber de nada abandonou a pergunta; quem opina sobre tudo encerrou a pergunta antes da hora. Em nenhum dos dois casos há alguém examinando a pergunta.

Hoje, existe uma abundância de fala sem compromisso com a verdade: as várias formas de ceticismo que negam que tenhamos acesso confiável a uma realidade objetiva e, portanto, que possamos saber como as coisas realmente são. Quem desiste de descobrir como as coisas são passa a cultivar outra disciplina, a de ser fiel a si mesmo e dizer com sinceridade o que sente; e como o próprio eu não é mais fácil de conhecer do que o mundo, a sinceridade, nessas condições, vira ela mesma uma forma de falar sem compromisso com a verdade. É uma objeção forte. Quem já ouviu, no meio de uma discussão, o “cada um tem a sua verdade” sabe que essa frase serve para encerrar o exame, e sabe também que ela costuma vir de alguém muito seguro da própria opinião.

 

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