terça-feira, 24 de abril de 2018

o que acaba restando



não é o espelho que está embaçado
mas
o que permanece não dito

uma vida pode se tornar refém
como uma tarde decapitada
de algo que não ocorreu

continuamos a insistir
no paradoxo do tempo
assim
o que acaba restando são migalhas

domingo, 22 de abril de 2018

precisamos falar sobre antidepressivos











Um estudo bastante extenso,envolvendo mais de 100 mil pacientes,foi publicado na prestigiosa revista britânica Lancet sobre a eficácia das drogas antidepressivas.Este foi mais um trabalho que busca esclarecer os reais benefícios desta classe de medicamentos.Um problema de credibilidade , de inicio , foi levantado : 78% do que já foi publicado sobre essa questão tem o apoio de industrias farmacêuticas que , de maneira óbvia,publicam apenas resultados favoráveis aos seus produtos.A população estudada incluiu pacientes com depressão moderada a grave e tinha como objetivo avaliar mudanças na escala de depressão de ,pelo menos , 50% após 8 semanas em uso de medicação.Porém analisando-se os resultados não foi possível afirmar-se com certeza que na prática clínica essas drogas seriam significativamente decisivas na melhora dos pacientes.Os estudos fazem comparações com placebo (um comprimido de forma idêntica ao medicamento porém sem nenhuma substância ativa). É muito importante destacar o numero de pacientes que se sentem melhor nesse grupo.Sabemos que até 40% das pessoas usando o placebo relatam um bom resultado após o período de 8 semanas.O estudo do Lancet concluiu que se 10 pacientes depressivos tomam medicamentos por dois meses , 5 irão relatar uma melhora mas em 4 destes não será efeito direto da droga.O mais importante não foi respondido  : qual o efeito das drogas em casos leves de depressão ¿ quais seus reais efeitos após 8 semanas ¿ quais os efeitos colaterais e sua magnitude ¿ quais os riscos de descontinuar um tratamento ¿  qual o real beneficio comparando-se os antidepressivos com terapias não medicamentosas ¿
É oportuno refletir sobre tanto a se conhecer.O que significa se referir a alguém como doente ¿ Qual a decisão certa a ser tomada quando se decide medicar ¿Existe uma crucial incerteza em se explicar o comportamento de algumas pessoas.Podemos constatar que a medicina está perdendo o diagnosticador para o especialista terapêutico.A sociedade aceita,infelizmente,até por comodismo,a medicação como solução.Se damos autoridade a uma droga como “tratamento” ,à pessoa como “paciente” , e ao seu pós tratamento como melhora acabamos de definir uma resposta terapêutica como um critério diagnóstico

O filósofo Gilbert Ryle , no livro the concept of mind , escreveu que é um erro tratar a mente como um objeto.A medicalização que observamos hoje é uma consequência da transformação das explicações religiosas para explicações médicas que surgiram após o Iluminismo.O excesso de medicamentos não é medicina ou ciência. É uma estratégia semântico-social que beneficia a poucos e prejudica muitos

um problema silencioso








Existe um problema de saúde que custa muito e afeta muitas pessoas.Chama-se não aderência à prescrição de medicamentos ( ou seja : não tomar a medicação ou tomá-la de forma errada).
Os números que vêm à tona são impressionantes : 20 a 30 % das medicações prescritas nunca são adequadamente tomadas.Em 50% das doenças crônicas , que requerem que as drogas sejam de uso contínuo , elas são erroneamente ingeridas.Cerca de um terço dos pacientes transplantados renais não usam suas medicações anti rejeição.41% dos indivíduos hipertensos estão com o tratamento descontinuado e metade das crianças com asma não usa seus inaladores consistentemente.
Este problema é estimado em causar cerca de 125 mil óbitos e aproximadamente 10% das hospitalizações por ano nos Estados Unidos.E tem um custo : 100 a 289 bilhões de dólares para o sistema de saúde
O cirurgião Everettt Koop comenta que " as drogas não funcionam em pacientes que não as tomam.Isto explica , muitas vezes , que novas medicações têm resultados muito bons em fase de estudo e funcionam menos na vida real ".
A não aderência é um amplo problema e não se visualiza uma solução uma vez que existem diferentes razões para sua origem.Por exemplo : os pais interrompem o tratamento da asma de seu filho porque não gostam da idéia de manter " uma criança usando uma medicação contínuamente".
Outros pacientes enxergam a droga como uma " quimica" ou um produto "não natural ".Para alguns , aderir a novos hábitos de dieta e de exercício os farão deixar de lado a necessidade de uma medicação.Os remédios responsáveis pelo tratamento de situações silenciosas , como a hipertensão , são desprovidos de efeitos sintomáticos.Isso significa dizer que não trarão benefícios de alivio de nenhum sintoma, por isso tendem a ser descontinuados com bastante frequência.
Na infectologia o uso de antimicrobianos de forma inadequada (principalmente com doses ou tempo de duração incorretos) implica na temida resistência bacteriana
O custo é outro ponto importante.Preços altos , quando não podem ser subsidiados , impedem até o próprio inicio de tratamento.
Diante deste panorama tão relevante esse é um desafio do médico na compreensão do seu paciente.Uma maior empatia , um controle mais acessível , uma discussão aberta e frequente podem ajudar.
Mas esbarraremos sempre na enorme diversidade do indivíduo e suas pretensões.
Esse é o problema silencioso que está por trás de toda relação médico - paciente.

segunda-feira, 12 de março de 2018

apenas sentir











Sempre se pergunta qual o motivo para algum sentimento.
Existe um principio que deveríamos seguir.
O que não se racionaliza apenas se sente.Deixa-se fluir.
Como um curso de agua que se forma após qualquer chuva.
Tem seu propósito.Respeita obstáculos.
Para.
Segue.
Cria uma pseudo permanência.
Depois pode evaporar.

Terá cumprido seu destino

domingo, 11 de março de 2018

desilusão






Acima de tudo,a distinção entre o amor e a desilusão não é tão distinta como imaginamos
A potencial presença de um elemento de desilusão no amor pode servir como importante função de alerta nesse processo

Mas após tanto....a desilusão persiste....o amor morre

sábado, 3 de março de 2018

os limites da compaixão




O atentado recente em Parkland,na Flórida foi o 18 somente neste ano.Há apenas 5 meses um atirador matou 58 pessoas em Las Vegas e cerca de um ano e meio atrás 49 frequentadores de um clube noturno em Orlando foram brutalmente assassinados nas mesmas circunstâncias.Nós deveríamos vivenciar a cada nova morte mais empatia , mais tristeza.Mas não.É próprio do ser humano se sentir desprovido de um sentimento de choque.Existe um conceito psicológico que ajuda a explicar essa insensibilidade diante das tragédias que se repetem,Diante do aumento do numero de vitimas nossa indignação e disposição para fazer algo na verdade diminui.Essa tendência é chamada de letargia psíquica.Essas atrocidades se tornam abstrações em nossas mentes e passam a ser progressivamente atenuadas e até mesmo ignoradas

O psicólogo Paul Slovic , expert na área , diz que não há um valor constante para a vida humana.Uma vida individual vai perdendo sua importância contra o pano de fundo de uma grande tragédia.Um recente estudo publicado por ele demonstrou esse fato.Slovic perguntou a várias pessoas sobre a disposição de doarem dinheiro para crianças com necessidades.Na medida em que o numero de crianças aumentava e o processo de doação se tornava mais frequente havia um decréscimo evidente no ato.Uma dessensibilização.

Na primeira vez que algo realmente chocante acontece ele impacta de modo significativo a maioria de nós.Em 1999 , dois estudantes assassinaram 12 colegas e um professor em Columbine,Colorado.A nação americana foi atingida duramente.Esse momento despertou o conceito dos atentados em escolas.Mas agora,com a repetição dos fatos,a repercussão passa como uma brisa.Nossos sentimentos não atuam como a matemática.Nós , na verdade , estamos mais focados naquilo que nos influencia diretamente : proteger a si próprio , proteger as pessoas próximas a nós.Podemos chamar isso de efeito da singularidade : a hipervalorização da vida individual

Paul Slovic explica melhor.Uma das razões é um sentimento de desamparo.Com o número de vitimas desse tipo de tragédias sempre aumentando nós nos sentimos impotentes para ajudar.Então afastamos o sentimento de empatia.Mas esse desamparo deveria ser encarado como uma mentira.Mesmo soluções mínimas, como leis mais rígidas sobre o controle de armas, podem salvar vidas.
Nem todo mundo é insensível , é claro.Mas pessoas que podem fazer a diferença não deveriam ter esse comportamento.Lutar contra a insensibilidade é um ato de conscientização muitas vezes difícil.Deveríamos ultrapassar os limites da compaixão
Uma morte é uma tragédia.Milhares de mortes não podem ser uma abstração

onde morrer




Até o século passado o lugar apropriado para morrer era em casa , rodeado pelos familiares.Com as extensivas transformações sociais causadas pela urbanização e pela difusão dos hospitais associada às grandes evoluções da medicina, a morte foi deixando progressivamente o lar dos doentes.Até 1940 a maioria das pessoas morria em seus lares mas apenas uma década após, 60% já eram hospitalizados.Com a propagação das unidades de terapia intensiva , com as novas tecnologias , com a extensão da expectativa de vida, os hospitais tornaram-se não só um centro de melhores cuidados mas um local onde a vida passou a ser prolongada em direção ao seu destino inevitável.Por força de ser um setor onde se convive com a gravidade e a fragilidade da doença o fim da vida tornou-se mais solitário .

A medicina vem mudando a forma de morrer. O médico vive a experiência da morte mais como um conceito ou processo do que um ponto final.Existe um calvário penoso que alguns pacientes apresentam : quanto mais medicalizada a morte, mais tempo eles  convivem com esse processo.A linha divisória entre vida e morte fica menos definida.Benjamin Gompertz , um matemático britânico , escreveu em 1825 que existem dois direcionadores para a mortalidade.Um extrínseco : acidentes e doenças.Outro intrínseco : ele chamou de as sementes da indisposição.Nós hoje sabemos que este termo pode ser traduzido pelo conhecimento da morte celular.Todo o progresso que conseguimos nos últimos anos foi exatamente em minimizar ou atenuar esta evolução decisiva.Mas os avanços em aumentar os anos de vida de uma pessoa proporcionam um crescimento de doenças crônicas.Assim nos tornamos reféns do tempo que nos aproxima da morte.Vivenciamos mais esta passagem sem estarmos de fato preparados para o desfecho.

Nossos ancestrais nasciam e morriam nas cavernas.Assim como a nascimento , a morte para muitos dos nossos familiares poderia ocorrer na mesma cama.A medicina moderna criou uma situação pesarosa para quem lida com pacientes no final da vida,Nós começamos buscando as soluções para evitar a morte , entendo-a como um inimigo.Porém ,ao longo do tempo,nós presenciamos estados vegetativos  que nos parecem tão desumanos,destituídos de dignidade.O final da vida vem se tornando mais uma negociação do que uma discussão.Neste momento a reflexão é a melhor saída : um equilíbrio entre o que deseja o coração e o que a mente conhece.Thomas Starzl , o primeiro médico a realizar um transplante de fígado , definiu a vida como uma curva em declínio,lentamente nos aproximando da morte