Só mostramos nossas flores no auge da sua beleza, sem
vestígios do trabalho necessário para se manterem belas.
Uma flor no ápice é um espetáculo complacente, ávida por ser
adorada e já meio consciente do preço a pagar. É a mesma coreografia com os
humanos: pele polida, luto cuidadosamente elaborado, a ilusão de compostura, o
sorriso corajoso prolongado por um instante a mais, a confissão bem formulada
que revela apenas a dor suficiente para ser suportável, como se estivéssemos
fazendo um teste para a nossa própria imortalidade.
Mas tente postar a foto de um buquê murchando. Tente
aparecer com olheiras que não sugerem uma vida de mistério indulgente, mas sim
de repetição desgastante. Ninguém quer a verdade. Querem o esplendor, não a
queda.
Como escreveu Baudelaire: "Le beau est toujours
bizarre" ( A beleza é sempre estranha )..
É estranho como a decadência se tornou pouco fotogênica.
Agora a autenticidade é filtrada, a vulnerabilidade é monetizada e a tristeza
precisa ser impactante para ser palatável. Você tem permissão para se desfazer,
mas apenas se fizer isso como um personagem impecável.Aqueles que se desfazem
de forma desordenada, sem graça, sem uma trilha sonora decente, são relegados
às margens.
Existe toda uma economia construída em torno da "autenticidade".
Uma flor murcha não
se importa se é apreciada. Nem uma mulher que envelhece e finalmente se cansa
de ser decifrável. A dignidade não está no florescimento. A dignidade está no
desinteresse. Em não precisar mais ser interpretada.
Passamos tanto tempo tentando ser úteis, desejáveis, fortes,
relevantes, extraordinários. Mas existe uma paz estranha e rara em simplesmente
ser, desgastado, comum, ainda assim repleto de memórias.
Há quinhentos anos, a decadência era uma metáfora. Agora, é
um incômodo. As pinturas renascentistas eram obcecadas pela” vanitas” – frutas
apodrecendo, crânios ao lado de espelhos, ampulhetas ao lado de seda e joias.
Era uma forma de lembrar aos ricos que eles também morreriam. Mais tarde,
industrializamos a morte. Tornamos-na higiênica. Fluorescente. Sussurrada atrás
das cortinas. Até o luto se tornou suspeito, algo que você tem permissão para
vivenciar por uma semana, talvez duas, antes de ser esperado que você retorne à
sua caixa de entrada e retome o consumo. Enquanto isso, o envelhecimento agora
é tratado como um erro que pode ser corrigido com séruns e otimismo
disciplinado. Até o tempo se tornou um problema de marketing.
Nem sempre foi assim. Houve breves e inconvenientes períodos
em que a decadência era tratada como sagrada, mas mesmo assim, apenas sob
supervisão. Os românticos flertavam com ela intensamente, poeticamente, da mesma
forma que os privilegiados flertam com o perigo. Adoravam ruínas enquanto estas
tivessem valor narrativo, enquanto o colapso pudesse ser traduzido em anseio,
masculinidade, genialidade ou uma mulher morrendo belamente para o
desenvolvimento de outra personagem. A decadência era aceitável se permanecesse
simbólica, legível, eroticamente disponível. Não queriam a podridão; queriam
permissão para sentir profundidade sem perder o controle. O grotesco podia
aparecer, mas apenas se soubesse posar. Apenas se tivesse um bom cabelo, boa
iluminação e a decência de morrer na hora certa.
Avançando para os dias de hoje, a deterioração é
digitalizada em conteúdo de terror ou simplesmente cortada. O algoritmo do
Instagram não recompensa a entropia. Você não viraliza ao postar seu colapso
emocional, a menos que esteja chorando de forma fofa e a publicação venha com
um código de desconto. Mas ainda existem culturas não comercializáveis onde a
cicatriz não é redimida ou reformulada, apenas convive com ela, onde o dano não
precisa ser instrutivo ou belo para ser permitido.
No Ocidente, remendamos. Escondemos. Aplicamos Botox para
disfarçar o que resta. Se o rosto de uma mulher mostra sinais de desgaste, ela
precisa explicá-los (trabalho, maternidade, divórcio, falta de colágeno) ou
será apagada pela indiferença do feed. Não há espaço para coisas que não pedem
para serem consumidas.
A decadência é democrática. Ela não se importa com status,
rankings algorítmicos ou sua rotina de cuidados com a pele. Tanto a rainha
quanto a garçonete vão ceder. O bico da influenciadora e o tremor do velho, com
o tempo, chegarão à mesma flacidez. Niilismo?! Não! É alívio. Observar a carne
desistir de sua necessidade de seduzir é profundamente igualitário.
A beleza, em última análise, nada mais é do que a biologia
relaxando.
No jardim, a
decomposição alimenta o florescimento do ano seguinte. Na psique, uma certeza
abalada abre espaço para nuances. No coração, especialmente no coração, a
decadência abre espaço para uma ternura inesperada. Aquela que não precisa de nome para ser real.
Não nos ensinam a encontrar beleza nas consequências. Nos ensinam
a temer a irrelevância, a lidar com o declínio como uma marca falida, a usar o
otimismo como arma contra nossa própria dor, a transformar o cansaço em
gratidão, a traduzir o luto em "crescimento" antes mesmo que ele
termine de se expressar. Há uma nobreza no colapso, quando ele não é
orquestrado, quando simplesmente... é .
Naõ devemos almejar um desfecho. Mas sim a honestidade.Os
momentos invendáveis. A flacidez. O azedume. Algo com que se confrontar, não
algo para republicar. Se a decadência nos ensina alguma coisa, é que a
verdadeira beleza não tem nada a provar e nada a esconder. Ela simplesmente
permanece. Até que não permaneça mais.
E talvez esse seja o único tipo que realmente importou,
aquele que nunca tentou durar, apenas ser real. Aquele que não exige nada de
memória, nada de investimento, nada de aplausos ou do futuro. Aquele que você
reconhece mesmo que não brilhe porque, quando se vai, algo em você finalmente
descansa.
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