Em 1998, Andy Clark e David Chalmers publicaram um artigo filosófico
"A Mente Estendida" sobre um
homem chamado Otto, que tem Alzheimer e carrega um caderno para todo lugar. Clark e Chalmers argumentaram que o caderno de
Otto não é uma ferramenta que sua mente usa. É parte de sua mente. A cognição
acontece além dos limites do crânio. Se a informação está lá de forma confiável
e é automaticamente considerada válida, então ela funciona exatamente como a
memória biológica.
Eles escreveram isso antes mesmo de existirem smartphones.
Ler agora é como ler uma profecia que se concretizou de forma tão completa que
ninguém se deu ao trabalho de perceber. Porque o telefone é o caderno de
anotações de Otto, aperfeiçoado e universalizado.
O celular foi incorporado. Ele guarda nossa memória”
transativa” ,um termo que descreve a maneira como casais de longa data dividem
as lembranças entre si: um cônjuge guarda os aniversários, o outro os prazos de
declaração de imposto de renda, cada um com metade do cérebro e, ao mesmo
tempo, íntegro.
Faça um exercício!
Pegue um pedaço de papel e tente escrever de memória tudo o
que seu celular faz por você atualmente. Todas as funções que você delegou. A
diferença entre a sua lista e a realidade do seu celular é uma medida precisa
de dependência.
A dependência é estrutural e nenhuma força de vontade
consegue alterá-la. Não dá para simplesmente minimizar a tecnologia.Seu banco
exige o aplicativo. Ingressos para shows são códigos QR, resultados de exames
médicos chegam por portais, a escola dos seus filhos se comunica exclusivamente
por uma plataforma e por aí vai.
Tente desistir, de fato, e você descobrirá que as
instituições da vida cotidiana se reconstruíram, silenciosamente, partindo do
pressuposto de que você continuaria carregando o dispositivo.
Ninguém nos escravizou. Nós assinamos um plano. Isso é novo.
Acho que ainda não nos demos conta completamente do quão novo é.
Um escravo sabe que é escravizado. A condição se anuncia; a
corrente é visível. O que temos é mais estranho e mais sutil. A pessoa comum
checa o celular mais de cem vezes por dia, dependendo do estudo consultado, e
cada checagem é vivenciada como uma escolha livre, um pequeno ato de vontade.
Ninguém nos força. Estendemos a mão para ele como quem procura apoio, abaixo do
limiar da decisão. Merleau-Ponty escreveu sobre a bengala do cego, sobre como,
com a prática, ela deixa de ser um objeto que o homem percebe e se torna a
coisa com a qual ele percebe, uma extensão do seu corpo sensorial. O celular
ultrapassou esse limiar há anos.
Não olhamos mais para os nossos telefones. Olhamos através
deles, para o mundo, uns para os outros. Esse é o sinal revelador. É assim que
você sabe que algo deixou de ser uma ferramenta.
Talvez sejamos os primeiros cativos da história a colocar
seu captor na cama todas as noites, com ternura, para que ele tenha forças para
nos abrigar novamente amanhã.
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