quinta-feira, 16 de julho de 2026

o caderno de Otto

 









Em 1998, Andy Clark e David Chalmers publicaram um artigo filosófico  "A Mente Estendida" sobre um homem chamado Otto, que tem Alzheimer e carrega um caderno para todo lugar.  Clark e Chalmers argumentaram que o caderno de Otto não é uma ferramenta que sua mente usa. É parte de sua mente. A cognição acontece além dos limites do crânio. Se a informação está lá de forma confiável e é automaticamente considerada válida, então ela funciona exatamente como a memória biológica.

Eles escreveram isso antes mesmo de existirem smartphones. Ler agora é como ler uma profecia que se concretizou de forma tão completa que ninguém se deu ao trabalho de perceber. Porque o telefone é o caderno de anotações de Otto, aperfeiçoado e universalizado.

O celular foi incorporado. Ele guarda nossa memória” transativa” ,um termo que descreve a maneira como casais de longa data dividem as lembranças entre si: um cônjuge guarda os aniversários, o outro os prazos de declaração de imposto de renda, cada um com metade do cérebro e, ao mesmo tempo, íntegro.

Faça um exercício!

Pegue um pedaço de papel e tente escrever de memória tudo o que seu celular faz por você atualmente. Todas as funções que você delegou. A diferença entre a sua lista e a realidade do seu celular é uma medida precisa de dependência.

A dependência é estrutural e nenhuma força de vontade consegue alterá-la. Não dá para simplesmente minimizar a tecnologia.Seu banco exige o aplicativo. Ingressos para shows são códigos QR, resultados de exames médicos chegam por portais, a escola dos seus filhos se comunica exclusivamente por uma plataforma e por aí vai.

Tente desistir, de fato, e você descobrirá que as instituições da vida cotidiana se reconstruíram, silenciosamente, partindo do pressuposto de que você continuaria carregando o dispositivo.

Ninguém nos escravizou. Nós assinamos um plano. Isso é novo. Acho que ainda não nos demos conta completamente do quão novo é.

Um escravo sabe que é escravizado. A condição se anuncia; a corrente é visível. O que temos é mais estranho e mais sutil. A pessoa comum checa o celular mais de cem vezes por dia, dependendo do estudo consultado, e cada checagem é vivenciada como uma escolha livre, um pequeno ato de vontade. Ninguém nos força. Estendemos a mão para ele como quem procura apoio, abaixo do limiar da decisão. Merleau-Ponty escreveu sobre a bengala do cego, sobre como, com a prática, ela deixa de ser um objeto que o homem percebe e se torna a coisa com a qual ele percebe, uma extensão do seu corpo sensorial. O celular ultrapassou esse limiar há anos.

Não olhamos mais para os nossos telefones. Olhamos através deles, para o mundo, uns para os outros. Esse é o sinal revelador. É assim que você sabe que algo deixou de ser uma ferramenta.

 

Talvez sejamos os primeiros cativos da história a colocar seu captor na cama todas as noites, com ternura, para que ele tenha forças para nos abrigar novamente amanhã.

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