A copa do mundo deixou de ser um evento esportivo na sua
essência para transformar-se em uma vitrine de publicidade de apostas.Nas
camisas dos times , nos comerciais inseridos durante as transmissões,no
patrocicinio escancarado com “atletas influenciadores” defendendo uma “aposta
responsável” ( símbolo da hipocrisia) etc.O evento de 2026 que acabou para o
Brasil (Copa das Bets) revelou o lado sombrio dessa forma de extorquir as
pessoas.
O fenômeno não se trata apenas como uma questão de escolha
individual.Existe algo muito mais amplo : uma engrenagem de sistemas projetados
para captura ar atenção, estimular a repetição, arrecadar usuários e
transformar comportamentos de risco em receita recorrente e bilionária.
As apostas esportivas vão se igualando a outros ambientes
digitais organizados por retenção, predição e design persuasivo (como o
Instagram, por exemplo) A aposta já não depende apenas do desejo do apostador.
Ela passa por arquiteturas digitais capazes de induzir comportamentos, reduzir
fricções e explorar vulnerabilidades.
A maior visibilidade da Copa foi aproveitada parar tornar mais
evidente uma fronteira que não estava bem delimitada : a que separa
publicidade, experiência esportiva e estímulo ao consumo de risco, inclusive em
ambientes amplamente acessados por crianças e adolescentes.
A consequência , já muito bem estudada e documentada está
ligada a uma série de elementos: o endividamento, a ludopatia — transtorno de
compulsão por jogos de azar —, os impactos sobre as famílias, a erosão da
economia popular e o aumento da pressão sobre a saúde pública. Também se soma a
isso o fortalecimento cada vez maior do capitalismo de vigilância : a captura
dos dados pessoais, do perfilamento e de designs manipulativos em plataformas
que aprendem com o comportamento dos usuários. E que podem, a partir disso,
predizer quem está mais vulnerável a continuar apostando.
A economia do vício
A vida digital produziu uma economia específica, fundada em
uma ciência comportamental, psicológica, basicamente behaviorista, inspirada em
estudos sobre comportamento repetitivo, prazer e adicção. Existe toda uma
ciência voltada a organizar a retenção da atenção e a maximizar o tempo de
permanência do usuário nas plataformas. É a economia do vício.
Não é um fenômeno novo ou restrito às bets, é um processo
estrutural, de décadas, ligado ao modelo mais amplo da economia digital.
Instagram, YouTube, bets e plataformas de mercados de predição operam com
designs voltados à retenção da atenção e à repetição cotidiana de
comportamentos, nesse jogo entre design e corpo humano, com pequenas doses de
prazer, liberação química e produção de dopamina. A utilização de dados
pessoais é central nessa economia, porque permite induzir comportamentos a
partir do encaixe de cada pessoa em um grupo social abstrato. É o perfilamento.
A partir de sinais sobre preferências, classe social, dinâmica de trabalho ou
hábitos cotidianos, é possível observar empiricamente milhões de usuários com
perfis semelhantes e predizer comportamentos. Há uma linha de continuidade
entre o que já era problemático nas redes sociais e o que agora migra para a
economia das apostas. Tudo está conectado pelo eixo do vício.
Nas últimas semanas,
houve uma percepção de que uma fronteira foi cruzada. A Copa deu uma
visibilidade imensa a algo que já vinha acontecendo: a presença das bets no
futebol, nas transmissões e na experiência de torcer. Houve um levante difuso
nas redes sociais, um incômodo com o modo como o incentivo ao jogo passou a se
misturar ao entretenimento esportivo. Esse debate é também uma discussão sobre
moralidade dos mercados. O que é correto, do ponto de vista moral, quando um
negócio ganha dinheiro com bets e, ao mesmo tempo, incentiva as pessoas a
jogar, misturando narração, evento esportivo e apostas? A Copa não criou esse
fenômeno, mas tornou muito mais evidente a escala dessa presença e o quanto ela
passou a fazer parte do ambiente midiático do esporte.
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