sexta-feira, 27 de julho de 2018

A cura do cotidiano




Poucas vezes refletimos sobre o processo de curar.
A transformação de um estado doentio , em qualquer nível , deveria englobar um caráter holístico.
Nós devemos curar a pessoa  , não só a doença.
Abraham Maslow no livro “ a theory of human motivation” propõe uma pirâmide de necessidades.Ele descreve as carências humanas num escalonamento de 5 níveis.Os níveis mais baixos são os fundamentais,sem os quais nada é possível.Os superiores dizem respeito a atividades ou motivações de ordem psicológica.O pleno entendimento desta escala mostra a nossa necessidade de estar bem.No estudo das relações entre os níveis , aplicados a cada pessoa em busca de uma cura , podemos entender onde suas carências mais se afirmam.Ele cita por exemplo as necessidades de estima,tanto em caráter intimo (confiança) como de pertencimentos (aos outros , o respeito).O que se pode aprender com as teorias de Maslow é que antes de mais nada precisamos curar o nosso cotidiano e não as patologias que o afetam.Essa intenção requer uma atenção terapêutica renovada,uma consciência do nosso social e o que pode , e deve , ser superado.
Essa proposta pode ter suas falhas como a própria questão de prioridades mas tem o mérito de ter tocado no ponto essencial : a nossa realização passa pela tradução de nossas pontencialidades em atos
A medicina ocidental se prende em demasia aos sintomas e veta,imperceptivelmente, o entendimento das causas essenciais.Muitas doenças vêm do ambiente social , do permanente processo civilizatório.Uma civilização doente em ética e moral gera indivíduos doentes,é possível concluir.Tem se tornado muito difícil transformar as representações que temos de nós mesmos e do mundo.Daí podemos inferir que a doença é ao mesmo tempo uma patologia objetivável pela ciência,um problema vivido subjetivamente pelos pacientes e um acontecimento social que se mescla à sua comunidade.Será que estamos preparados pra ajudar os pacientes na sua busca pelo sentido simbólico que é vinculado às suas doenças ?.Maslow afirma que essa é uma expectativa de cada um ao adoecer e é uma esperança favorável para o processo de cura.A ciência médica está pouco preparada para o sentido coletivo das doenças.Em diversas culturas tradicionais este ocupa um lugar primordial nos rituais terapêuticos.Se não refletirmos sobre a maneira como “enxergamos” os problemas estaremos correndo o risco de apenas medicalizar.A pessoa pode não mais existir.O doente (como representação daquele que sofre) também e até mesmo a doença (como provação existencial) pode desaparecer em proveito apenas dos sintomas. A cura do cotidiano não pode ser apenas quantificável.Nosso equilíbrio e saúde dependem da qualidade que estabelecemos entre nós mesmos.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

o que ?


o que resta após uma espera não concretizada ?
após o olhar perder-se na procura ?
após o não encontro ?

o que resta quando a expectativa é maior do que o racional....após os segundos que passam enquanto se passa....após a distância aumentar ?

o que resta quando o alimento da alma não é o mesmo da razão ?

terça-feira, 12 de junho de 2018

o direito de morrer







O cientista australiano David Goodall , 104 anos , viajou até  a Suiça a fim de se internar numa clínica onde o suicídio assistido (sob orientação médica) é permitido.Ele não estava doente nem apresentava algum problema psíquico.Para quem perguntasse sua resposta era simples : “estou cansado de viver”. O jornal New York Times retratou sua atitude como uma celebração da morte com dignidade.
Goodall é mais um a escolher um final para sua vida e o suicídio assistido é considerado legal em vários países e em estados americanos como o Oregon e Washington.Os debates sobre o direito de morrer têm sido intermináveis e levantam questões polêmicas.Quem tem o direito de terminar a vida e porquê ¿ Qual é a definição de uma vida que não vale mais a pena ser vivida ¿ Onde as decisões do paciente , seus melhores interesses , são soberanas ¿
Na maioria dos casos , aqueles que escolhem a morte com dignidade estão sofrendo de uma doença incurável.Mas nem sempre é o caso : Aurelia Bronwers após 8 anos de intermináveis batalhas judiciais conseguiu convencer a corte de juízes que sua depressão grave tornara sua vida insustentável.Aos 29 anos de idade conseguiu a permissão para o suicídio assistido.
Goodall não estava doente mas sim bastante fragilizado pela idade.Ele não queria ter mais tempo.Em cada caso a idéia de liberdade se encontra com a vida na sua essência e suas questões morais.Por tradição, a maior oposição a qualquer forma de morte assistida é de natureza religiosa.Os dogmas religiosos se dividem em interpretações de como o final da vida deveria ser.Alguns ressaltam a questão da preservação mas não ao custo de medidas extraordinárias ou artificiais.
Tanto na questão do aborto ou da eutanásia nós encontramos uma forte tensão natural na idéia da escolha : todos teríamos o direito de decidir o que fazer com nossos próprios corpos ¿ Contrapondo a isso temos a razão de que sempre é necessário preservar a vida.Os paradigmas religiosos , tradicionalmente , dão uma qualidade sagrada ao ato de viver.No entanto na prática médica nós frequentemente  nos deparamos com situações on de a vida e a dignidade não coincidem.O aumento da expectativa de vida nos faz perceber que existe um limite de idade onde a morte já não surpreende.Muitos chamam este evento de “causa natural”.É possível que o ser humano considere que já tenha vivido o suficiente para morrer.
David Goodall morreu ouvindo a musica “ Ode à alegria”.Poema escrito por Friedrich Schiller e cantado no quarto movimento da 9 sinfonia de Beethoven   

quinta-feira, 3 de maio de 2018

museu das nossas coisas








está ali
a garrafa de agua
pela metade

ao lado a xícara
com a marca , irreconhecível , de batom

outras coisas se perdem
ao não se permitirem possíveis
de serem abraçadas pelo olhar

muito fica silente
livros ancorados
discos descasados
meia sem par

quarta-feira, 2 de maio de 2018

aparência



são premeditados os nossos gestos
aquilo que expressamos já é muito igual
a fala está próxima ao aparelho....para quem você fala ?

são possíveis as nossas reações
sorrimos um riso não natural
pois é assim que se faz....assim que nos tornamos mais um
mais nada

são aparências as nossas sombras
o amor não encontra mais sua calma
não se realiza ao se transmutar em fragilidade

para quem você fala de amor?

quinta-feira, 26 de abril de 2018

o que é real


na vida virtual existe uma insistência para meramente explicar tudo de forma neutra
mas por definição não pode haver neutralidade pois se prioriza algo sempre

a vida virtual foi designada para maximizar a atenção , então se enaltecem posts com mais cliques e controvérsias

as experiências online e real estão mais inseparáveis a cada dia
o que se vê deve levar impacto no que se faz no mundo

o grande problema é que a distinção se torna mais nebulosa a ponto de gerar padrões de comportamento absolutamente arquétipicos
isso é evolução ?

quarta-feira, 25 de abril de 2018

desempenho



a maior plataforma social do mundo
2 bilhões de usuários
a sociedade do desempenho vagarosamente aprende que não é cliente e sim produto

o facebook dá lembranças de datas , uma determinada atenção
em troca de seus dados que depois venderão produtos , ideologias e elegerão politicos

a sociedade do desempenho por enquanto espera um clique