quinta-feira, 28 de maio de 2026

infalível

 









O filósofo sul coreano Byung-Chul Han nos ensina porque na nossa contemporaneidade estamos chegando ao colapso com muito mais frequência do que no passado.

O século XX foi marcado pela negatividade. Havia inimigos declarados claros, limites visíveis, proibições que moldavam a vida.Tudo que fosse repressivo era externo: o Estado, o partido,o sistema. Estava claro o que nos oprimia.

O século XXI desmantelou essa estrutura. Agora tudo é possível, permissivo. De repente podemos assumir qualquer protagonismo.

Han visualiza que o inimigo não desapareceu , ele passou a habitar o nosso interior. Passamos a ter “escolhas” próprias.

Essa é a sociedade do desempenho que procria o Burnout , a ansiedade,a depressão. Passamos a assumir o papel de gestores.Qualquer colapso é uma falha pessoal e não uma previsibilidade de um sistema gerado para que nos culpássemos por tudo.

Então surge um outro protagonista infalível : o celular.

Quando a vida inteira  se resumiu a produzir cada vez mais, o silêncio se torna o único lugar onde essa cobrança não tem para onde fugir.E nesse silêncio nos perguntamos : quem sou eu quando não estou produzindo nada?

A resposta é dada imediatamente pelo celular : o pertencimento imediato, o estímulo incessante, a sensação de protagonismo, de reconhecimento. Nunca ficamos mais interiorizados com nós mesmos .Perdemos a capacidade da racionalidade crítica e da contemplação (ela é única em produzir novas idéias ao invés de sermos meros reagentes a estímulos).

Se eliminamos o silêncio, exaurimos a profundidade do pensamento. O que resta é uma névoa que esconde a vida real e projeta um mundo distópico. O que o século comercializa com muita propriedade é um inebriante mundo digital. Uma vida onde o silêncio dói.

Ninguém se propõe a responder a uma pergunta : você consegue existir sem produzir, sem consumir e sem ser visto, e ainda se sentir inteiro?

A era da materialidade não tem precedentes. O simples ato de estar consigo mesmo é uma experiência que a maioria das pessoas ativamente evita

O celular é só o espelho mais portátil dessa condição.

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